terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A bela da vitrine


Ví aqui de fora o que é todo teu por dentro,
Jamais serão de alguém; lindos vasos varados,
Vidros desejados transparentes que insinuam corpos pálidos;
Objetos do desejo da raça que se diz civilizada,
Sensualidade dura, muram os anseios dos que se admiram.
delicadas mãos que chamam com anéis nos tornozelos,
Cotovelos pontiagudos e lábios bem carnudos;
Coxas que invejam, bundas que arredondam;
Fechos que não fecham, e olhos sem sangue que desabrocham;
Seios, os dois cegos mais firmes, em um sutiã de óculos.
Pés suaves e finos, com dedos bem alinhados, todos em dez...
...São, talvez, as vezes dos que passam e param, e até vendem suas almas
Para as compras que as acalmam; terapia de massa...
E esperam por no prego e toda vez se espetam,
E se furam quando pulam os muros transponíveis cor de consumo.
Os que fumam ficam fora, como os duros que nem sequer sonham;
E as portas não fecham nunca, nem as pernas das manequins,
Nem as geladeiras branquelas, nem os sedans que se insinuam,
Nem TVs que não te veem... Computadores ,
Celulares, Remédios... tua saúde, teus planos...
Esfregam-se nas indústrias de reprodução.
Roupas que te rompem, Sapatos que não calçam... gravatas que te enforcam,
Diamantes que desmontam... ouro que não usam , mas apavoram,
Quintais que te consomem nas casas do exagero,
que não fazem mais pra morar, ignoram o necessário,
e almejam teu salário, teu furor, teu amor e tua vida,
tua mente fechada pelos canais abertos, e tua carteira aberta
para uma conta, que em breve será "serasa"
são cascas de ferida que se arrancam doloridas;
São de 24 horas sempre, e arrebatam todo dim-dim, e mais o dim- dum-dom,
e o fom-fom, e o tic-tac também, teu lar, tua alegria, teu sossego, teu sono.
Tua mulher vai embora, e tu ficas com o belo morcego
da vitrine cor de pano.

George Rezende

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