terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Pedido de Casamento

Façamos assim:
você larga tudo. 
arrisca.
mas arrisca comigo.
eu sei que mudanças trazem medo.
mas medo e insegurança são naturais diante disso.
a gente arruma um cantinho qualquer,
não precisa ser grande
basta que caiba nós dois e nosso amor.
eu me organizo nos dois empregos
arrumo qualquer hora do dia
pra salvar nosso futuro casamento.
esquece que mulheres já passaram pela minha vida.
esquece os homens também.
lembre-se, todos os dias, que você é o homem da minha vida
mesmo quando não ouvir isso da minha boca pela manhãs
ou pelo anoitecer.
lembra também que já me sinto velha e quero ter um filho, logo.
não me deixa solta. livre por aí.
toma conta de mim como se eu fosse rara no mundo.
prometo cuidar de ti com todos aqueles juramentos
na saúde
na doença
na tristeza
na alegria
te prometo ser sua.
cuidarei da casa
das suas roupas
de nós, sempre. 
manterei cervejas na geladeira
pra esquecermos que já estamos bêbados de amor
e vez ou outra ficarmos bêbados de álcool. 
farei o almoço que você mais gosta aos domingos.
viajaremos de fusca pra alguma cidade pequena no interior do rio de janeiro.
vamos atravessar rj-sp com sua moto e dormir nos motéis de beira de estrada.
let's make love
amor, trepar, transar, em todos os cômodos
experimentar todas as posições do kama sutra
vamos surpreender, sempre.
fugir da rotina e preservar a rotina.
não quero que mude em nada.
quero você assim
do jeito que é.
com o que tem pra me oferecer.
quero seu conservadorismo controlando meu liberalismo.
sua simplicidade, seu amor genuíno.
mas se permita a deixar eu mostrar o que posso te oferecer. 
quero nossas almas grudadas.
e quando estivermos já na nossa casa
quero esse poema visível
para não esquecermos que almas gêmeas existem, sim.


Fernanda Veiga
http://letterssoul.blogspot.com/

A bela da vitrine


Ví aqui de fora o que é todo teu por dentro,
Jamais serão de alguém; lindos vasos varados,
Vidros desejados transparentes que insinuam corpos pálidos;
Objetos do desejo da raça que se diz civilizada,
Sensualidade dura, muram os anseios dos que se admiram.
delicadas mãos que chamam com anéis nos tornozelos,
Cotovelos pontiagudos e lábios bem carnudos;
Coxas que invejam, bundas que arredondam;
Fechos que não fecham, e olhos sem sangue que desabrocham;
Seios, os dois cegos mais firmes, em um sutiã de óculos.
Pés suaves e finos, com dedos bem alinhados, todos em dez...
...São, talvez, as vezes dos que passam e param, e até vendem suas almas
Para as compras que as acalmam; terapia de massa...
E esperam por no prego e toda vez se espetam,
E se furam quando pulam os muros transponíveis cor de consumo.
Os que fumam ficam fora, como os duros que nem sequer sonham;
E as portas não fecham nunca, nem as pernas das manequins,
Nem as geladeiras branquelas, nem os sedans que se insinuam,
Nem TVs que não te veem... Computadores ,
Celulares, Remédios... tua saúde, teus planos...
Esfregam-se nas indústrias de reprodução.
Roupas que te rompem, Sapatos que não calçam... gravatas que te enforcam,
Diamantes que desmontam... ouro que não usam , mas apavoram,
Quintais que te consomem nas casas do exagero,
que não fazem mais pra morar, ignoram o necessário,
e almejam teu salário, teu furor, teu amor e tua vida,
tua mente fechada pelos canais abertos, e tua carteira aberta
para uma conta, que em breve será "serasa"
são cascas de ferida que se arrancam doloridas;
São de 24 horas sempre, e arrebatam todo dim-dim, e mais o dim- dum-dom,
e o fom-fom, e o tic-tac também, teu lar, tua alegria, teu sossego, teu sono.
Tua mulher vai embora, e tu ficas com o belo morcego
da vitrine cor de pano.

George Rezende

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Os dramas do amor romântico


Ainda que sobrevivamos aos casos e acasos, não aprendemos com eles. Acho que talvez estejamos presos a um inconsciente coletivo, a uma falsa ilusão de que o amor existe. E eis que paira sobre mim uma questão: O amor realmente existe? Talvez não exista palavra mais idealizadora que essa. Amor pra mim é divino e os homens seres incapazes de suportar tamanha força. Não damos conta do amor, mas até que poderíamos se todos os namoros vivessem congelados no seu primeiro ano de vida. Toda a idealização do amor está ali: aquela doçura de quem se ama, a compreensão, os afagos e o sexo latente que não sobrevive, mesmo que tentemos, ao poder corrosivo do tempo. E quem diz que ama da mesma maneira que há uma década atrás está mentindo. Hoje minha mãe me diz que se vivesse no meu tempo jamais casaria. De certo modo até que a entendo, mas a verdade é que somos solitários e que a angústia da existência nos impulsiona a procurar algum tipo de consolo. Estamos longe do autocontrole, da auto-suficiência e mesmo quem se diga resistente ao amor, uma ora ou outra acaba perdendo a batalha. Confesso que merecem aplausos os infiéis ou quem ama mais de um. Talvez essa seja uma solução para fugir do amor romântico. E quem não tem o dom de se render aos relacionamentos modernos, acaba por ruir aos poucos nessa velha e amarga novela. A modernidade pode ser uma arma a nosso favor. Já não se vê com maus olhos quem troca de parceiro a cada estação e nem quem trata uma fossa com transas casuais. Hesito um pouco em falar que cada um tem o seu jeito de amar, pois já vi muitos casos em que os mais insensíveis dos seres se transformam em mocinhas dos romances de jornaleiro. Há quem diga que o amor é uma criação do homem assim como a fé, e por silogismo amar é ter fé. É acreditar que mesmo com as diferenças, com as brigas e o rancor, no fim vai valer a pena, mas o problema é que a modernidade é cética. Não acreditamos mais nos outros depois de algumas desilusões e não nos deixamos mais abertos com medo de sermos destroçados novamente. Uma opção seria tratar o amor como uma religião. Cultivar o amor, ser fiel ao amor, praticá-lo e senti-lo sem medo. Apenas por acreditar que aquilo pode dar certo se os dois quiserem, mas sem cobranças. E guardar quaisquer que sejam as questões sem desistir que a vida nos dê uma resposta. Porque de uma maneira ou de outra, ela sempre dá.

O início.


O mundo sempre surpreende. Toda essa nossa liberdade conquistada por séculos de loucuras e incoerências. Todos os conceitos, preconceitos e pós-conceitos que temos dos outros. Toda essa neurose moderna que transparece por mais que nos julguemos democráticos, no final sempre julgamos as pessoas. E o mundo surpreende cada vez mais. Pelo direito de falar e não ser queimado na fogueira, pela coragem que as pessoas estão tendo de se mostrar, descrevendo-se honestamente. Algo de que com tanta honestidade nos desvenda aquilo que não sabíamos ser tão comum. O mundo aos olhos das nossas gerações passadas que ainda estão vivas sem produzir, sem viver o mundo, apenas o olhando como observadores, é o fim dos tempos. Porém a nós, jovens da era pós-moderna, ele é o início de tudo. Nunca estivemos tão livres, tão expressivos. Hoje todos nós temos voz, não importa quem sejamos. Qualquer sujeito com uma ideia na cabeça pode se tornar conhecido. Hoje alguns dos nossos ídolos não nascem de gravadoras, editoras ou emissoras de TV, nascem de si mesmos. E desse mundo louco de sempre, mas agora assumidamente louco procurando por adjetivos que qualifiquem a vida, por sentidos que nos signifiquem, é que iremos falar e nos surpreender a cada post. A cada crônica um escritor diferente expondo o que vê do mundo e nos conectando a ele, a uma parte do mundo que a gente não conhece. 

Editor do blog,
Caco Garcia.